segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Maratona Seaside Lisboa 2012


Manhã fria com 4º C de temperatura á saída de casa,

 No entanto o céu apresentava-se sem nuvens e com umas tonalidades que faziam dela umas das mais bonitas manhas de inverno.

Entrei equipado no carro, camisola da prova com manguitos, blusão para aquecer e calções, levava o Polar no pulso que anunciava 6,50h de Domingo 9 Dezembro 2012

Liguei o rádio e meti-me na A2 em direcção a Lisboa. Uma manha sem carros e sem nuvens que mais se pode pedir..
   Cheguei como sempre muito cedo, estacionei numa rua de moradores e fiquei ali, a ouvir rádio e a fazer mentalmente o percurso e a preparação da prova.

Qual estratega , tinha decidido não arriscar baixar dos 5´,30 / km mesmo que me sentisse muito bem e no meio de tantos pensamentos, reparo que já se viam muitos atletas a percorrer a pé a zona de sacos ás costas dirigiam-se ao complexo para se equipar e aquecer, sai..do carro passavam 20 minutos das 8h

É cedo pensei mas festa é festa . em minutos dezenas, centenas ..Muitas centenas de pessoas..percorriam a Av. Rio de Janeiro para cima e para baixo, o pavilhão onde guardavam as coisas estava repleto nas bancadas de atletas a mudar de roupa ou a manterem-se quentes.

Voltei ao carro..faltavam 20 minutos, encontrei caras conhecidas, troquei abraços e votos de boa sorte e vi a minha equipa de outras corridas ( Clube Praças Armada – CPA)

Luis Conceição, Custódio António, Cármen Pires estavam ali para correrem com as cores da equipa. Luis Almeida vai fazer de pace maker com o balão das 3 horas, tudo pronto pra festa!!











Deixei o blusão e as chaves do carro entregues ao Luis Conceição e fui aquecer, faltavam 10 minutos. O speaker de serviço anunciava a prova e que esta será a 13ª Maratona de um atleta Belga este ano.  3 minutos liguei o “Polar” e conferi posição GPS e a banda …estava ansioso por a banda do cardio não ligar, abro a caixa e está sem pilha ..Esqueci-me de meter a pilha da banda. :))  grande Burro!!

Ajuntamento cada vez mais compacto, muitos saltos e palmas no meio da muralha multicolor e PARTIDA!!

Passei o pórtico ao minuto 2 a andar era impossível correr, encostei-me á direita e fui seguindo os passos cautelosos de um senhor de idade de uma equipa do Norte.

Começou finalmente a Maratona, sentia-me tão bem como se estivesse no meu ambiente natural..comecei gradualmente a ganhar espaço e comecei a correr , um mar de gente a perder de vista seriam as testemunhas do meu feito. Tentava manter-me calmo, dentro do meu ritmo de maratona 5,30-5,35” mas era impossível a adrenalina não permitia e dava por mim a travar constantemente.  

- “vais muito rápido..alivia..”  A Marechal Gomes da Costa era um cenário único com um rasto de pessoas de tantas nacionalidades (46) a entrar no ritmo de cada um, passei por um binómio de cadeira de rodas e não pude evitar tocar no ombro do atleta paraplégico e sorrir. Km 5 vi o Luis parro e o seu grupo no 1º abastecimento, segui-os uns minutos prudentemente, conheço-os sei o que correm apesar do ambiente descontraído e do ritmo certinho. Juntei-me ao grupo fui mt bem recebido como sempre ..são muitos kms mais vale ter boa companhia do que ir só apesar de rodeado por tanta gente. Tinha planeado não saltar nenhum abastecimento e agarrei uma garrafa de água e fui bebendo sempre com a garrafa na mão, campo grande, António e Francisco Stromp, Alvalade XXI a ultima vez que ali tinha estado foi em Outubro na Corrida do SCP e virei para o seu interior aos 10k ,  agora seguiria em frente para telheiras.  2º Abastecimento coincidiu com a passagem de testemunho das estafetas ao km 10 e picos, sempre com a garrafa na mão troquei-a por uma cheia e segui com o grupo. Colombo, seguimos e rodámos á direita para contornar o Fonte Nova, esquerda e vamos em direcção á radial de Benfica até 7 Rios..vejo a Analice a atleta decana mais veterana da prova..Parabéns pela coragem e força de vontade aos 69 anos de idade , aqui o passo acelera e vamos dentro dos 5´ / km vou bem ..Demasiado bem! Subimos a passagem superior do Columbano Bordalo Pinheiro, virámos á direita para a AV. José Malhoa e ais a 1ª subida, fi-la na boa sem sequer dar por ela..continuo muito bem..chegámos ao topo eis á direita Mesquita de Lisboa http://pt.wikipedia.org/wiki/Mesquita_Central_de_Lisboa seguimos até á António Augusto Aguiar virámos á direita para o Corte Inglês uma subida ligeira que fizemos sempre em ritmo..Continuo muito bem..Fontes Pereira de Mello em direcção ao Marquês daqui até á Praça do Comércio é sempre a descer , médias abaixo dos 5`/ km continuo muito bem aos 19km , rua do Ouro , praça comércio engalanada com as claques que apoiavam atletas estrangeiros ( Alemães e Franceses)  distribui hi-five aos montes para motivar tb quem nos motiva..primeiro contacto com o empedrado secular notei a diferença mas ia bem..no km 20 . Ministério da Marinha. Cais do Sodré e as intermináveis obras, continuo muito potente sem dores nem cansaço.

km 21 troca de elementos da maratona por estafetas  vejo a Rute , sorridente tinha terminado a sua prova, cumprimentámo-nos e trocámos umas palavras de apoio faltavam 21km..segui em direcção a Algés e tentei apanhar o grupo..entrei no ritmo de 5,16” e fomos cautelosos atrás da bandeira das 4h. , Começava a ver atletas de regresso o Custódio António sempre em altas fazia a separação do trigo e do joio, minutos depois muitos atletas..resmas ..Pazadas de atletas? Quéee isto?? Áhhhhhhh era a meia maratona que vinha em sentido contrário. A 24 Julho deve ser das avenidas mais chatas que conheço, grandes rectas e o próprio piso faz mossa quando se já vai com muitos quilómetros e não se tem o peso dos Eritreus. Um elemento do grupo dá sinais de cansaço o ritmo era forte e as cãibras estão a massacra-lo. Parou! Outro colega do grupo parou tb para o auxiliar (Qual o desporto em que se vê colegas parar ao km 25 para ajudar outros colegas numa demonstração clara de que o importante não é o tempo, é estar ali..e ajudar) mandou-nos seguir, abrandámos á espera..minutos depois juntaram-se ao grupo.

Km 27,27 vou bem, a este ritmo acabo antes das 4h (o meu objectivo) vejo balão das 4h á minha frente cada vez mais perto..passo-o ao km 29 pouco após o retorno. Dor forte no joelho, mas não a dor habitual uma forte dor na parte anterior do joelho impedia-me de dobrar a perna e correr normalmente. Insisto, cheguei ao km 30 (ZA) ainda a ver o grupo que acompanhei desde o km 5, prudentemente abrandei e mandei-os seguir ainda havia muita estrada e convinha jogar pelo seguro. O Luís Parro pergunta-me como estou e respondo que fico bem...podem ir!

Parei para beber, era a primeira que parava na maratona e esfreguei energicamente o joelho e a perna , agarro uma garrafa e tomo de uma vez só gel que tinha , continuo…desta vez e até ao fim da prova .só!

Começo a respirar profundamente e procuro no mp3 uma musica para me animar encontro uma http://www.youtube.com/watch?v=gF5LaVkDhyk ( Bryan Adams  Run to you) entro no ritmo de corrida  não posso abrandar o “polar” indicava uma média de 5,45” / km..vamos a partir de agora estás por tua conta e só faltam 12km..um treino ..Um simples treino! Era o que mais faltava logo agora perto do fim..

Km 31 , 32, 33 volto a ver a Rute ( A menina que corre e de que maneira) agora acompanhada mas igualmente sorridente, sabe que vou em esforço retribuo o sorriso e digo qualquer coisa como “ até já ..falta pouco “ a cabeça agora é que me levaria até á meta a 8 km daqui..atletas que passara há muito vão aparecendo, vão ultrapassando, vão encorajando sabem que não vou bem..continuo chego ao km 35.4  praça do Comércio achei-a bonita com uma enorme arvore de natal techno, e um empedrado novo , mais limpa ..os Alemães mudaram-se não vejo nenhum ..o Joelho fraqueja novamente a lesão contraída na Ultra maratona atlântica deixou marcas profundas,,nem sessões de fisioterapia, massagens criminosas, nada..sinto mesmo uma pontada na coxa..algo entre uma cãibra e um ferro em brasa..que raio..tal como surgiu desapareceu..nisto uma Francesa gritava qualquer coisa na minha direcção , é comigo..não entendo e sorrio ..Repete “ Allez..Forçe!!

 _"Merci" respondeu o poliglota coxo..Martim Moniz km 37.15 nunca gostei desta zona porque raios fazem questão de passar por aqui , no antro da capital..entro na Almirante Reis disposto a fazer das tripas coração mas desistir há muito que deixou de ser opção..um Nórdico grita palavras de ordem para 2 senhoras e empurra-as –“ havia de ser comigo..” Pensei! “Vai mas é polir o elmo !! “

Elas riam-se que nem umas perdidas e faziam adeus, era digamos uma forma de encorajamento viking mesmo a andar o senhor era mais rápido do que elas a correr., continuei a correr ..sempre encostado ao separador central e ia apreciando a cara de dor, cansaço, sofrimento dos atletas..para gáudio de uns quantos palermas que se riam, Banco de Portugal , Portugália..passei nem a vi..mas abriu-me o apetite , procurei o ultimo gel que tinha e despachei-o numa assentada bebi o resto da agua que tinha. – “Está quase..aguenta” viam em sentido descendente perto do técnico os primeiros medalhados de saco na mão já tinham feito a sua parte..parabéns!! a dor não dava tréguas, lancinante queria arrumar-me ali..tão perto da meta km 39km. Ia ultrapassando e sendo ultrapassado constantemente.

Ganhei animo.sinto-me anestesiado, sem dor na perna nem no joelho no topo da subida parecia outro, ainda pensei olhar para trás e ver a enorme multidão que subia, mas não fiz por respeito pois sentiria uma pontada de bem-estar e não seria justo depois de ver tanto sofrimento e espírito de sacrifício como vi naquela subida, km 39,97 está feita a subida nem sei a que média mas recordo-me de ter olhado o “ Polar” e ver 6,40” / km numa das fases mais criticas..até pensei “ xiiiiiii quase 7´/km “ , estou no topo da subida Areeiro, viro á esquerda ( mais obras) .Av João XXI uma recta bestial com um plano inclinado para contrapor á subida interminável que acabara de fazer..já está!! Vejo do lado direito alguém apoiar efusivamente os atletas, reconheci-o era o Dr. António Goucha Soares, fiz hi-five agradeci-lhe, invoquei o seu livro como inspirador para prova que estava a terminar, Sportinguista, licenciado também pela minha faculdade, professor do ISCTE, e um maratonista feito..como eu!! Segui entre sorrisos e felicitações com uma força como se começasse agora ( vá-se lá entender a natureza humana) há que lhe chame o 2º fôlego  ou “le deuxième soufflé”  na versão original  ou (the second breath) para os saxões, quando se é finnisher numa maratona internacional temos que pensar global..:)

Viro á direita Av. Roma reconheço-a está mais larga, colo-me a uma atleta loira, esquálida de passada larga e passo-a estou brutal..estou farto!! Assim como a outros que vejo á minha frente, perco o respeito e ultrapasso-os quero acabar e estou bem..finalmente após tantas dores..desde o km 30, chegou a minha hora pena ser tão perto do final..nem olho o relógio mas sei que vou acima das minhas capacidades e se calhar faculdades :<)

Entro na Av. E.U.A está quase e ainda por cima a descer é ali á esquerda que vou virar, vejo camisolas desaparecerem por entre uma esquina..é ali..vou acabar!!

Entro na Rua Rio Janeiro e vejo uma multidão de faces e corpos a agitarem-se num frenesim entusiasmante são todos a apoiar, não os oiço , nem vejo ,.,.Estou focado,..é Ali que quero estar, entre eles daqui a pouco a apoiar que precisa. Somos todos campeões, viro á esquerda estou no complexo desportivo, em frente vejo a pista e o pórtico do outro lado..

Estava louco..tenho uma passada forte quando estou bem..passei atletas (sem querer) mas as minhas pernas e coração..queriam ir e eu deixei..

 

Estava acabada a minha 1ª maratona de estrada, de braços ao céu dediquei-a ao meu pai.


 

Terminei-a não a sorrir mas com os olhos rasos de água pelo que passei e pela dedicatória que estava a fazer. (Obrigado Pai)

Uns quantos fotógrafos registam o momento e sigo a passo pra zona dos sacos e pela primeira vez entre muitas medalhas que recebi ma colocaram no pescoço, senti-me um atleta verdadeiro e jubilado,  bebi a água que estava no saco e comecei a despedir-me com o olhar daquele recinto e daquela multidão que gritava e acenava aos seus atletas que terminavam, um dia único..!! Sai do recinto e dirigi-me ao carro após 04,12h de ter começado.

 

Sentia-me estranho, num misto de felicidade e indiferença, mas fazia tudo de novo, pois vivi uma experiencia única.

 

Sou Maratonista!



 

9 comentários:

JoaoLima disse...

És maratonista!!!

E é difícil comentar mais depois de ler este texto dum fôlego.
Só quem vive este desporto, sabe o que isto representa.

Um grande abraço

Corre como uma menina disse...

Até fiquei emocionada com o relato e a dedicatória final... :) É sempre fascinante ler o que vai na cabeça de quem corre tantos kms... Pensam em tudo e em nada, não é?
Foi um prazer ficar a aplaudir-vos!

Parabéns Maratonista!

Da menina que corre mas não tanto. :)

Jorge Goes disse...

João: Somos maratonistas!!
quando escrevemos sobre coisas "grandes" como a que acabámos de fazer, fica sempre muita coisa por dizer, há coisas indiscritiveis, sentimentos unicos ,pensamentos irreveláveis, irrepetiveis momentos que nunca poderão ser escritos com o rigor e a verdade do momento vivido. Não há palavras..É melhor assim estariam provávelmente aquém da grandeza das emoções!

Obrigado pela força e pelo exemplo que és. Abraço

R: Foi um prazer encontrar-te e nem sei como te agradecer o sorriso e as palavras principalmente naquele 2º momento em que o desespero estava a tomar conta de mim, sabia que era capaz mas todos os meus receios e fantasmas estavam ali a tomar forma, a querer que eu parasse!a dor traiçoeira e forte que atormentava cada passada, o desespero da desistência eminente contrapostos com a vontade de continuar pois tinha de continuar.

Não te saberei dizer o que vai na cabeça de um maratonista, ninguem o saberá com verdade,acho!(nem os poetas porque não são maratonistas) Mas sei dizer-te o quanto te estou agradecido pela tua simpatia e pelo teu apoio Graças a ele senti força e razões para continuar.

muito obrigado

Carlos Cardoso disse...

Grande Jorge, muitos parabéns pela prova e pelo relato que é fantástico. Bemvindo ao clube dos Maratonistas!!! Aquele abraço e boa recuperação.

Carlos Cardoso disse...

Grande Jorge, muitos parabéns pela prova e pelo relato que é fantástico. Bemvindo ao clube dos Maratonistas!!! Aquele abraço e boa recuperação.

Pedro Carvalho disse...

Parabéns Jorge!!!
Fizemos uma prova muito parecida. De certeza que andámos muito perto.
Mas tiveste mais força nas alturas críticas.
Agora é desfrutar o momento e pensar na próxima. Quem sabe Sevilha? Fala com o Parro. ;)

Forte abraço!!!

Tiago Rodrigues disse...

Mais uma vez, muitos parabéns Maratonista. E que belo relato o teu.
Tive pena de não te encontrar antes da partida para te desejar muita força e sorte pessoalmente. Agora é descansar, recuperar as mazelas e disfrutar o momento.

Jorge Goes disse...

Carlos: Obrigado pelas palavras simpáticas. Por isso estou a gostar tanto desta modalidade, a diferença entre pessoas como nós e outros praticantes de outros desportos, é que nós vibramos com as vitórias e conquistas de outros atletas, ohamos para os outros com respeito, com admiração e isso basta-me. Com amizade!
Grande Abraço

Pedro:
Sim talvez tenhamos nos tenhamos encontrado em alguma fase da prova. Desculpa se te não reconheci.
A força esteve presente em todos nós até ao fim, conseguimos!! Os meus parabéns também a ti, vou falar com o Parro ainda hoje
(devo-lhe isso ) pelo apoio e amizade e falo sobre Sevilha. Abraço e bom descanso

Tiago:
Muito obrigado pelo teu apoio desde a 1º hora, havemos de nos encontrar um dia por aí, numa qualquer prova e dar-te um abraço
Parabéns também para ti, fizeram uma bela equipa e conseguiram um bom resultado.
Abraço

Anónimo disse...

Parabéns pela tua estreia na distância mítica.

Não te preocupes com o tempo. Na primeira Maratona o que interessa é ficar com vontade de fazer outra (digo eu :p). Bater as 4 horas não é fácil e este percurso é difícil de "temporizar" de forma equilibrada.